Capítulo 1.4: 6 vidas por 1 instante.

Finalmente o último post do primeiro capítulo, após um longo tempo. Espero que gostem.

Bem acomodada, no outro lado de Nova York, as 6:45 da manhã, a prestigiada repórter do canal cinco, desperta com o quase ensurdecedor apito do despertador que sempre a faz surrá-lo como se fosse uma criança desobediente. Trinta e dois anos, reconhecida pelo mundo televisivo, na media do possível e dentro dos padrões de uma repórter, mas bem sucedida. Cabelos castanhos quase avermelhados e repicados um pouco além da altura dos ombros, olhos azuis e uma pele um pouco clara de mais para alguém que vive em Nova York e tem seções de bronzeamento disponíveis a qualquer hora que quiser. Mas talvez fossem esses pequenos detalhes que diferenciassem Susane McGarden das outras mulheres de seu nível. Enquanto outras repórteres se enlouqueciam atrás de uma mísera notícia que daria audiência, ali estava ela tomando seu suco de pêssego de forma moderada conforme dizia a dieta que estava sendo obrigada a seguir, graças a sua nutricionista psicótica, pelo menos era assim que Susane a julgava quando a mesma era impedida de desfrutar de seu delicioso bacon matinal que a fazia mais feliz do que qualquer outro presente. Por sinal era um dos poucos hábitos que ela nunca deixara nos últimos 10 anos que se passaram. Era bom ver toda aquela gordura concentrada naquele pequenino e por que não dizer, miserável pedaço de bacon repousando sobre o prato. Ou quem sabe fosse mais do que a gordura que transbordava ao mastigá-lo, quem sabe fosse uma distante e deliciosa risada que ela podia escutar por apenas dois segundos quando ela fechava os olhos e o engolia, uma risada jovem e cômica de alguém que a fazia rir por horas por causa de um simples filete de carne extraída de um suíno. A risada máscula e engraçada passava por horas em seus sonhos e em seus piores pesadelos, era como se fosse um flashback viciante e contínuo que a perseguia, que sumia por dias, às vezes por meses, mas no final sempre aparecia como se fosse um cartão de visitas, só restava saber de quem.

- Não, Jéssica! Não posso simplesmente aparecer aí em apenas meia hora, existe uma coisa chamada trânsito que você inclusive não precisa encarar por morar duas quadras antes da maldita central! – esbravejava Susane enquanto espremia o telefone entre a orelha e o ombro, tentando pegar as coisas dentro da bolsa. Batons, um pequeno estojo de maquiagem, preservativos, carteira, documentos, carteira de motorista vencida, celular e algumas jóias deslizando sobre uma foto já cheirando a mofo, dobrada no fundo da bolsa.

- Mas o que… – começava a perguntar a si mesma, pegando a foto e a desdobrando, reparando melhor nas pessoas que a compunha, um grupo de jovens borrados pelas manchas que o tempo havia deixado na foto.Alguns sorrindo, outros levantando taças, um casal abraçado, outro de mãos dadas.

- Susy? – Indagava a mulher do outro lado da linha, absorta pela falta de atenção da amiga. – Oi! Ok, ok! Estarei aí daqui a pouco, bye. – Diz Susane jogando o celular dentro da bolsa, ainda com a mente vagando pela foto que acabara de desenterrar daquele cemitério de coisas que toda mulher carrega na bolsa. Passara de leve os dedos sobre alguns rostos na esperança de deixar mais visível e identificável as pessoas do retrato. Algumas palavras ecoavam por sua cabeça tomando formas diferentes, expressões diferentes, um ar mais pesado. “É aqui que isso termina…” – Como se um puxão no estômago a trouxesse de volta a realidade, Susane fecha os olhos numa tentativa de apagar a lembrança, mas logo é tomada por um novo desespero ao olhar sua agenda que indicava os dois próximos dias como aqueles que precederiam um reencontro esperado e temido.

Em contra partida, o desespero deixa o cenário de nossa história conforme o tempo se passa, dando espaço ao sorriso meigo e contagiante do médico de 35 anos, Robert Collins, que contracena neste momento com o ar requintado e calmo de Julie Allen, sua companheira inseparável das mais diversas conversas já há uma década. Era impressionante a conexão que os dois tinham entrem si, conversavam, se admiravam, elogiavam um ao outro a ponto de despertar curiosidade de muitas das pessoas que os cercavam no dia-dia, por achar que eles tinham um caso ou coisa parecida. O término da faculdade não fora o suficiente para apagar aquela amizade que existia desde o fim do colegial ou os segredos guardados. Ele, um médico se aproximando da faixa dos quarenta, não em plena e completa forma física, mas seu ar considerado quase angelical, o fazia uma pessoa diferente de todas as outras. Nunca se casou, não tinha filhos, na verdade era raro as pessoas terem conhecimento de qualquer relacionamento que havia tido durante toda sua juventude, o que também despertava a curiosidade e a ironia de muitos. Dava conselho nas horas que mais precisavam, sempre disposto a ajudar, embora nunca tenha tido alguém que o ajudasse quando realmente precisou, a não ser, Julie. Essa, uma psicóloga com um gosto sofisticado e até mesmo o simples andar de uma musa, porém, sempre humilde. Vinda de uma família de classe alta de Ohio, nunca exibiu seu dinheiro nem suas condições sociais, seu jeito simples era quase marcante. Duas pessoas dinstintas, quase cúmplices de um crime que poucos cometem, o afeto. Enquanto Robert passava mais tempo metido em associações beneficentes, Julie se preocupava em tocar os negócios da família, que na maioria das vezes eram deixados nas mãos dos advogados. Ele, um homem já com idade e maturidade para ter uma família, apaixonado pela natureza, e vencedor de muitos preconceitos. Ela, o status social perfeito, que cobria o que havia ainda de melhor por trás do jeito refinado. Talvez se tudo não tivesse tomado outro rumo, poderiam ter acabado juntos. Talvez se Robert não tivesse tido uma época tão conturbada em que mais precisou de uma amiga para apoiá-lo do que uma mulher entre seus lençois. Ou quem sabe se Julie tivesse dito naquela virada de ano o que realmente pensava e o repudiado por não ser como as outras pessoas…

- Mas e se tivesse sido diferente? – dizia Robert tomando mais um copo de vinho, no restaurante onde os dois almoçavam com freqüência.

- Diferente como? Se for mais uma de suas charadas ou perguntas sensitivas, pode me poupar dessa vez, sou psicóloga, não sou médium. – retrucava Julie sorrindo, ainda sem olhar para Robert que brincava com o macarrão enquanto a mulher visava seu próprio reflexo na taça.

- Não seja tão rude, apenas imagine, como seria se todos tivessem seguido suas vidas aqui, como nós, se não tivessem se separado e nunca mais dado notícias.

- Prefiro não imaginar, isso vai além do meu limite psicológico, por vezes dado como duvidoso nos testes vocacionais. – ironizava a si mesmo a mulher, tomando mais um gole na taça. – Mas por insistência minha, aprovados.

- Abandone sua carapaça profissional por um instante, e analise bem as possibilidades. Pense bem, Richard, lembra dele? Depois que falei com ele na ultima vez por telefone, descobri que vive em Los Angeles, casou-se com aquela garota filha daquele homem que vendia equipamentos de pesca, os dois tem uma vida agradável, porém, não muito confortável, não tem filhos e…

- Ok, onde pretende chegar com isso tudo? Dizer que foi sua culpa, ou nossa culpa ter deixado que cada um deles seguisse seu próprio rumo?

- Não, apenas pensando diferente. Lembra de Caterine? Que casou com um famoso jogador, como era mesmo o nome dele?

- Jimmy Carter. – completava Julie não mostrando muito interesse na conversa embora ainda considerasse cada coisa dita pelo amigo.

- Exatamente. Pelo que fiquei sabendo ela não tem lá uma vida conjugal muito amável, ele é violento. Os vizinhos reclamam constantemente de brigas.

- Como ficou sabendo de tudo isso assim, tão de repente? – perguntava começando a se interessar aos poucos.

- Fiz ligações, pesquisei, procurei saber como estão levando a vida, até falei com os dois primeiros que eu mencionei há alguns meses. Afinal depois de dez anos sem contato, é preciso estar por dentro, descobrir o do que ficamos de fora todo esse tempo.

- E o que mais descobriu?

- Lembra do Look? Formou-se, escreveu alguns livros, vive aqui! Aqui em Nova York! Anos e anos morando na mesma cidade que a gente… – dizia Robert se empolgando com as próprias palavras enquanto gesticulava com as mãos ainda segurando a taça, que volta e meia derramava um pouco da bebida sobre a mesa, instigando uma risada controlada de Julie. – Creio que nem preciso mencionar que costumamos ver Susane McGarden todos os dias.

- Mas não falou com ela, senhor oráculo? – debocha Julie enquanto levanta o braço pedindo a conta para o garçom.

- Não, mas recebi um e-mail, ta certo que foi um depois de vários que eu mandei, mas ao menos disse que iria vim pra virada de ano.

- E Look?

- Também virá, depois de tanto custo me respondeu o fax, nos resta agora esperar.

- Robert, será que vale mesmo a pena reunir essa gente toda, ainda mais sabendo que alguns deles não tem mais uma relação tão íntima?

- É como você mesmo disse, isso não é minha culpa.

- Mas pode não ser muito agradável para alguns deles.

- Quem dirá se valerá à pena serão eles, não nós. – encerra Robert enquanto pagava a conta e se retirava do restaurante com Julie do seu lado. Uma cena realmente cômica a julgar pelo relacionamento que tinham.

Realidade. A palavra que assusta aos menos corajosos, ou porquê não dizer, menos insanos? Quando antecede os momentos em que mais tememos, aguardamos, ou ouvimos falar com freqüência, mas até poucos segundos antes do acontecido, não nos ligávamos. Ou quando simplesmente nos damos conta de que o mundo não é um lugar muito seguro. A realidade que às vezes nos assusta de forma desesperadora e excitante. A mesma realidade que fez essas pessoas se separarem em uma noite, deixando rastros marcantes, decepções, dentre outras coisas das quais eles jamais imaginariam que iriam encarar novamente após 10 anos. A mesma realidade que unirá essas pessoas novamente, poderá causar conseqüências irremediáveis. Pois é a mesma realidade que eles tentaram mudar, até então…

- Tem certeza de que não quer ir comigo? Será divertido. – dizia Richard enquanto se despedia de sua mulher, beijando-a na testa como sempre fizera num sinal de carinho.

- Espero realmente que valha a pena. – suspira pra si mesmo, Caterine, aguardando o ônibus rumo a Nova York, sem olhar pra trás, onde estava sua casa.

- E mais uma idiotice pra coleção, Sr. Skipper. – confessava Look aos risos, meio desnorteado, para o retrovisor do carro enquanto passava por uma das avenidas engarrafadas da cidade.

- Apenas finja que não é real, apenas finja que não foi real… – Exclamava de olhos fechados, a repórter Susane, ultima integrante de um grupo no mínimo curioso, apertando as mãos contra o volante e fechando os olhos.

Os mesmos olhos que mais tarde presenciariam o que todos aguardavam, mas certamente não acreditariam…

Não até presenciarem.

“Pregar a verdade como forma de propor alguma coisa útil à humanidade é a receita certa para ser perseguido.” (Voltaire).

Tenham um bom fim de semana.

Diego Dias

Publicado em: às março 14, 2009 em 3:32 pm  Deixe um comentário  

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