Odeio pensar em títulos para isso.

O mundo parece estar caminhando dia após dia para um abismo sem volta. Guerras, aberrações, discuções sem sentido em pró de um falso bem para a sociedade entre outras coisas que já estamos começando a nos acostumar sem o antes crítico olhar politicamente correto. O engraçado é perceber que diante de tudo isso ainda temos tempo para vivermos separadamente. Sem guerras nem conflitos internacionais, mas enfrentando as mais diversas adversidades com nós mesmos.

Sem ninguém. Sozinhos de frente ao espelho. É aí que nossa ficha cai.

Ou deveria dizer, nossa máscara? É isso o que usamos no dia-dia. É nisso que muitas vezes até acreditamos por uma suposta obrigação. Não adianta negar, você sabe, eu sei, e cada ser humano nesse planeta sabe, que temos nossas próprias máscaras e que querendo ou não, elas são úteis. Na verdade são até necessárias, mas nunca eternas.

Um bom dia no trabalho mesmo quando está de mal humor, um obrigado para a garçonete que acordou com o mesmo mal humor e lhe serviu um sanduíche frio, mas que por simples educação você prefiriu ignorar ou até mesmo o doce que você teve que dar para a criança que estava ao seu lado e cobiçou tanto que lhe fez sentir culpa, mesmo sabendo que a mesma não existiu por motivo algum. Eu tenho, você tem, todos nós temos essas máscaras diárias. O problema é quando ela cai. É aí que pode morar o perigo para quem não aprende a administrar tal ocorrido ou a chave para um mundo completamente novo para quem consegue viver sem seu disfarce. Quer um modo de compreender? Analise bem a seguinte situação:

Você acaba de ter um dia duro no trabalho ou no colégio ou seja lá qual for sua rotina, passou por coisas que você odeia mas como fazem parte do cotidiano nem te afetam tanto da mesma maneira de antes, talvez por ter se acomodado. Quando isso termina no fim do dia você corre para casa na ânsia de poder relaxar e é recebido com contas, obrigações e afazeres da casa o que não diminui sua paciência, afinal você pensa “Ah, todo mundo passa por isso…”. Depois, resolve ligar para a pessoa que você costuma dizer que ama, saber como foi o dia, ou qualquer outro assunto que vocês costumam discutir. Após alguns minutos vocês brigam, você desliga, olha para relógio e viu que ja quase todo seu dia e em nenhum momento dele você recebeu alguma retribuição gratificante pelo esforço que você executa sempre. Então você deita, ajeita o travesseiro, liga o ventilador na sua direção ou se cobre com um confortável cobertor dependendo do clima onde mora. Antes de dormir você pensa que talvez algo poderia ter sido melhor. Talvez se a máscara tivesse escorregado quando o chefe lhe disse que não era capacitado para o que estava fazendo. Talvez tivesse que ter deixado-a cair quando escutou aquele “eu te amo” e preferiu tirar qualquer possibilidade de algum relacionamento. Talvez devesse ter chutado a máscara para bem longe e ter dito aquele “eu te amo” sincero e soltado um belo “dane-se” para todo o resto que fosse contra isso. Ou talvez devesse simplesmente ter arrancado sua máscara e deixado as lágrimas rolarem quando soube da morte daquela pessoa que você conhecia tão bem.

Então você se levanta, acende a luz e repara que só há você no quarto, mais ninguém, apenas um espelho que reflete sua real imagem de volta para você. O que você faz? Chora o que não pôde por ter que ostentar a imagem de uma pessoa durona ou pouco maleável? Diz um “foda-se!” bem dito para seu patrão? Diz um “Eu te amo!” bem forte e alto para que a pessoa que devesse ouvir escute ainda que bem longe? Você simplesmente sorri por saber que aquele é você, bem mais belo e real do que você é no decorrer do dia? Você grita com raiva para que “ele” ou “ela” percebam algo mais entre vocês?

Diante de tantas possibilidades que dependem da personalidade de cada um de nós, e de seus dilemas, ainda fazemos a mesma pergunta para o espelho: Quem é voce?

É um interesse mascisso que temos em descobrir quem somos de verdade e porque ao longo do tempo deixamos que algumas farsas encobrissem isso. Não estou dizendo que não seja necessário um pouco de educação, ou paciência ou ainda sim uma pessoa mais robusta para aguentar certas situações. Mas caro leitor, querendo ou não, todos temos nossos “demônios” interiores. Aquele nosso lado que parece errado e duvidoso aos nossos olhos, e que cosciente ou incoscientemente tentamos abafar a todo custo.  Não sabemos o nome deles, não sabemos o porque eles existem, e não temos a menor noção de como dominá-los, mas sabemos que eles fazem parte de nós. Eles somos nós.

Nossos desejos reais, nossos talentos enrustidos, nossos medos, nossas admirações, nossos amores mais fortes e sinceros. Tudo isso completa esse lado estranho e invertido que muitos de nós temos dificuldade de admitir e repudiamos como algo indevido, por conta da nossa já conhecida máscara que às vezes existe mesmo apenas para nos proteger da realidade que nos assusta.

E você? Já tirou a sua? Não pense que vou dizer algo como “Então o que está esperando? Tire logo!” porque jamais direi isso. Sei como ela é confortável e te ajuda a resolver os problemas que você só consegue devido a sua dependência com ela. Eu sei disso. Eu sei porque sou assim. Sei porque eu era. A minha caiu como a de vários que sucumbiram após essa queda. Quando digo sucumbiram me refiro ao sentido mais bizzarro da palavra. Pessoas que não conseguiram lidar com isso e afastaram as melhores coisas que poderiam lhe acontecer. Dinheiro, família, amor verdadeiro, sucesso profissional, reconhecimento, paz consigo mesmo. Coisas que todo ser humano almeja. Acho que o motivo de não ter sucumbido ainda deve-se ao fato de que não estou tentando dominá-lo quando o olho refletido no espelho. Não estou buscando alternativas apelativas ou alguma coisa que me faça substituir a antiga máscara. Estou olhando bem nos olhos e perguntando “Por que?”. Então ele zomba de mim, com o mesmo sorriso que eu tenho, ri debochadamente como se eu tivesse optado pela pergunta mais idiota. E eu reformulo dizendo “Por que justo agora?”. Então ele para a risada, me olha do mesmo jeito que o olhei há poucos segundos e me diz quase num misto de raiva e pena: “Porque você já me prendeu por muito tempo.” E finalmente eu percebo do jeito mais estranho que a maldita máscara não escorregou por acidente. Percebo que eu não caí para que ela se quebrasse em mil pedaços no chão.  Percebo que eu mesmo a tirei, com minhas próprias mãos. Com as próprias mãos e sem ter a mínima noção do que poderia enfrentar eu a arranque e joguei longe. Percebo também que meu reflexo no espelho que antes me abordava como algo vivo passa a ser agora apenas uma imagem refletida dos meus movimentos. Eu sei que ele não se foi, ele ainda está alí. Ainda está aqui comigo. Apenas decidiu que uma pergunta bastaria para esse encontro inusitado e viu que eu já obtive a resposta para ela.

Você leitor(a)  jamais saberá o que estou passando se não for alguém envolvido(a) diretamente com isso. E eu prefiro não saber e não me importar com o que você passa para respeitar a individualidade de ambos. Mas como atual sobrevivente nesse despertar, creio que possa dizer algo direto para você. Se ainda não tirou sua máscara, não tire, continue assim. Se já tirou e está tendo dificuldades de admitir e tentar juntar os pedaços dela sobre o chão, sinto lhe dizer mas é tarde. Não tente dominar o que você viu no espelho, nem enterrá-lo para que ele não faça o mesmo com você. Apenas admita que querendo ou não, nessa história toda você é o cavalo e ele o cavaleiro. Ambos indomáveis. Não estão de lados opostos, estão juntos, numa corrida que iniciará apartir do momento em que perceber isso. Eu iniciei a minha, passando pelos mais diversos obstáculos, mas continuo nela.

Quando iniciar sua corrida, lhe desejo boa sorte e lembre-se de que podemos até nos esconder de tudo, mas o futuro quando nos acha, pode ser o mais macabro dos vilões ou o maior sobrevivente dos heróis.

Um grande… aperto de mãos!

sabe como é, precisamos inovar um pouco.

Diego Dias

Published in: on março 24, 2010 at 5:13 am  Deixe um comentário  

Bom dia, Domingo!

Creio que o ultimamente o tempo que eu tenho livre para o blog tenha aumentado, embora ainda sim eu continue desleixado como sempre. Mas convenhamos, até que ando ligeiro se comparado a última vez que me distanciei de tudo isso aqui. As situações também não facilitam muito meu ânimo para postar, afinal, quem me conhece sabe que qualquer acontecimento pode mudar de forma brusca minha escrita ou o que tento passar quando escrevo. Dessa vez creio que não seja diferente. Muitas são as coisas que andam acontecendo numa velocidade medonha, sem que eu tenha muitas oportunidades de assimilar. Sim, é uma verdadeira corrida no escuro, cujos passos errados podem resultar em fortes quedas, e só lhe resta apostar no instinto, na sorte, no destino ou seja la como vocês chamam aquilo que os ajudam a caminhar de olhos vendados. Eu particulamente, não dou nome, eu apenas confio, e torço calado para que as coisas dêem certo.

Quando criei esse blog no ano passado, meu principal objetivo era postar sobre temas do cotidiano e projetos que eu sabia que provavelmente não teriam continuação, mas que seria importante ter comigo a opinião de pessoas que são e ao mesmo tempo não são tão envolvidas com a leitura. Mas às vezes as ocasiões mudam nossas rotas, meio que nos desviam do objetivo principal e nos levam a fazer certas abordagens que nem são do interesse público. Mas acho que no fundo isso é natural do ser humano. O egocentrismo, se é que posso chamar assim, faz parte do nosso cotidiano e é de certa forma saudável quando não em excesso.

Sinceramente, não sei ao certo se sou uma pessoa egocêntrica. Sei lá. Não tenho a necessidade de falar de mim mesmo, mas sinto que de vez em quando sufoco por não ter com quem confessar meus erros diários sem passar uma impressão errada, ou apenas mostrar o quão danificado eu me torno com certas coisas que a primeira vista passam despercebidas. Na verdade até tenho, Deus (sim, eu acredito e confio nele, embora eu não seja um bom exemplo a ser seguido no quesito fé), e talvez a pessoa que faz meu coração bater mais forte, mas pra essa evito mostrar meus piores defeitos embora ela ja os conheça, prefiro aproveitar a dormência que ela os causa, deixando-os desmaiados e consequentemente desfrutar das minhas poucas qualidades que aguçam quando nos falamos.

Acho que deve estar se perguntando onde quero chegar com tudo isso. A resposta é simples e ao mesmo tempo sem muito sentido, para você, claro: Nenhum lugar.

Apenas imagino o blog como um livro. Um livro particular, daqueles que você não tem nenhuma obrigação de ler, mas que quando percebe a crosta de poeira se formando, logo começa a limpá-lo, a folheá-lo sem muito interesse, e antes que perceba já está lendo. No meu caso, escrevendo mesmo.

Acho que tudo tem um motivo para iniciar. O disparo de uma arma precisa ser engatilhado, precisa sentir o desejo de acertar o alvo passando por entre seus dedos e concentrar-se no projétil. Uma ponte que desaba precisa ter sofrido as consequências do tempo e do peso excessivo sobre ela. O carro que para no meio da avenida em pleno trânsito da cidade grande, precisa ter seu combustível esvaído. A vontade de escrever no blog ou em qualquer projeto literário não é diferente. É preciso além de gostar da escrita, sentir que precisa escrever. Precisa sentir que seu peito não é o suficiente para armazenar esse turbilhão de emoções, que sua mente não é tão forte para suportar seu conflito de opiniões. Em outras palavras, é preciso ser fraco e forte. Fraco para necessitar expressar e organizar seus pensamentos e sentimentos fora da sua mente, e forte para conseguir tal feito sem ajuda, pois não é nada fácil.

É estranho, admito, mas só escrevo bem quando algo me afeta. Preciso estar mergulhado em uma angústia particular que ninguém nota, só se me conhecer muito bem. Ou preciso estar em um mar de felicidades que até quem não me conhece percebe.  Não sei se isso é um defeito ou uma qualidade mas prefiro nem saber, talvez seja essa a chave para um futuro sucesso, quem sabe?

Confesso que há um motivo em especial que me atiça a escrever, não especificamente aqui no blog, mas no projeto que ando trabalhando. Acho que a palavra certa nem seria escrever, e sim pensar. Sou o tipo de pessoa que não presta, admito. Deixo as coisas banais chamarem minha atenção e arrancarem minhas risadas. Piadas de humor negro, sensacionalismo barato, ilusões de um país melhor, entre outras. Faço comentários fora de hora, piadas com quase tudo, tenho sempre um pé atrás com as pessoas, sou pessimista, ao mesmo tempo sou persistente, sou tão confiante que na maioria das vezes acabo sendo inseguro, arrisco até o fim, aposto, caio, levanto,  superestimo os que admiro, subestimo os que desprezo, troco essa mesma regra várias e várias vezes, mudo raramente de opinião, abro raras exceções para quase tudo, sou preguiçoso e não acredito muito em altruísmo, embora seja importante continuar tentando acreditar. Mas o mais impressionante é ver como sou quando estou com uma pessoa. Me sinto melhor mesmo sabendo que posso realmente não ser. Me sinto bem, como se tivesse onde me apoiar quando estiver prestes a cair, ainda que eu me esforce contra isso. Me sinto calmo e estranhamente inquieto, meu coração acelera quando a vejo, meu sorriso fica trêmulo, perco a segurança, como se estivesse tão vulnerável como eu nunca fui.

Eu odeio isso. É verdade. Odeio ser vulnerável a isso. Odeio não poder dizer que é só mais uma. Odeio perceber que se um dia disser que não me ama mais, um pedaço de mim vai embora e a ferida será dolorosa, e nem mil e uma tentativas irão fechá-la. Odeio saber que algo assim me alcançou antes que eu pudesse adquirir conhecimento de como combater. Odeio não combater. Odeio ter tentado combater sem sucesso. E odeio ainda mais não querer mais combater.

É tão difícil explicar. E o pior, é tão fácil sentir. Sentir o rosto corar quando me elogia, ou ver ela mordendo os lábios, encabulada. É tão ruim pensar que nunca ficaremos juntos. E é ao mesmo tempo tão bom cogitar que ainda podemos acabar juntos, olhando pra trás e agradecendo por ter terminado dessa forma. Só Deus sabe como eu torço, oro, vibro ao imaginar e aguardar um final feliz onde nosso beijo sela esse filme conturbado. Acho que na verdade ele não deve mais aguentar me ouvir falar, reclamar e pedir isso.

“Cara, arranja algo pra fazer e deixa que eu cuido disso, fica frio.” – ele deve dizer.

E não está errado, embora meus pensamentos não se desviem de forma fácil. A cada bom dia, a cada boa noite, a cada vez que tocamos nesse nosso dilema (sim, não é mais uma coisa que possamos cuidar de forma individual, é um problema em dois, dois em um. Um só.). Gosto de imaginar às vezes que isso tudo faz parte de um tratamento com algum psiquiatra que me fez afundar em um daqueles “comas” que vemos na tv, e eu simplesmente preciso achar a saída, mas quando vejo que a única saída é levando-a comigo e deixando tudo pra trás numa louca e mirabolante explosão de acontecimentos, vejo que é a vida real. É mais profundo. É mais forte. É um desafio? Um teste para ver se aguento esperar? Não sei, só sei que adoro desafios. E sei que a amo. Isso basta.

Bom, é melhor eu parar por aqui, meu sono e o seu que tem a coragem de ler os posts ja devem estar em sincronia, o que indica que é hora de me despedir. Não sei direito quando será o próximo post e muito menos qual será, mas em breve pretendo postar algum dos projetos aqui novamente. Foi bom poder reanimar o blog e tirar as teias com as mãos.

Que venha o próximo post. E que não demore!

Abraços!

Diego Dias

Published in: on março 14, 2010 at 7:10 am  Deixe um comentário  

Primeiro post do ano!

Ah! Quem diria que eu estaria de volta após tantos meses distante de tudo isso. Foram tantas as coisas, tantas coisas boas, outras nem tanto…

Coisas que me mantiveram distante do blog e outras que me motivaram a voltar. E é para falar de uma delas que venho às vinte e três horas e quatorze minutos dessa cansativa e maçante quarta-feira (Ok, eu sei, não mudo o detalhismo infernal) escrever para vocês.

Amizade. Sabe o que significa? Segundo o dicionário seria um sentimento de simpatia recíproca entre duas ou mais pessoas. Está certo, mais vale acrescentar algo nessa explicação resumida (e chata) que nossos amados livros nos trazem. A melhor forma de fazer isso é lembrar de como nos sentimos quando estamos com aquela pessoa que enchemos a boca para chamar de amigo(a).

Ficamos felizes ao vê-los, preocupados ao perdê-los de vista, com medo ao acobertá-los, furiosos ao sermos contrariados por eles e sentimos o pior dos sentimos ao deixá-los, a saudade.

Ao lado da nossa casa, do outro lado da cidade, em outro Estado, do outro lado do mundo, pessoalmente ou até mesmo virtual. A forma, a distância ou o modo pelo qual mantemos contatos sequer tem uma real importância se comparado a o que somos ou nos tornamos quando estamos juntos. Creio que compreendi isso tão recentemente quanto tomei a noção de que não estaremos mais juntos daqui a alguns dias. Não estranhem, estou me referindo a uma pessoa que se tornou bem mais do que eu imaginava que poderia ser. Uma companheira de trabalho tão justa e ao mesmo tempo tão leal que com o tempo acabou virando meu real (e único) refúgio em um ambiente que ocasionalmente tem perdido quase que todo seu encanto.  É interessante e confesso que um tanto amargo pensar que daqui a alguns dias vou estar lembrando sozinho dos bons momentos em que passamos gargalhando e fazendo palhaçadas que até os piores dos comediantes repudiariam. Mas também será (e já está sendo) gratificante lembrar dos momentos difíceis e de imenso nervoso e ansiedade, em que tive um apoio quase fraternal de sua parte. Será imensamente prazeroso lembrar dos debates sobre os mais diversos assuntos. Ah, mas será difícil não sentir uma pontada de remorso por não ter aproveitado mais de cada conversa, de cada sorriso, de cada implicância diária…

Definitivamente deveria existir alguma lei do tipo “Não faça amigos, você pode deixá-los”. E nessas duas últimas semanas, espero sinceramente que o tempo demore um pouco mais a passar, para que não saiamos com um pingo de arrependimento por alguma risada não solta, por um deboche não dito ou por um simples olhar não apreciado.

Isso não é nem metade do que pode ser acrescentado quando uma pessoa pergunta em alto e bom tom para você, o que é amizade. Isso é apenas o que eu consigo dizer sem tropeçar em palavras. Mas é mais do que óbvio, que amizade vai muito além de qualquer compreensão. É como a vida e a morte, não podemos compreendê-las por completo, mas devemos estar atentos para reconhecê-las e aproveitarmos ao máximo o que temos em mãos.

Não sei se era exatamente o que esperavam por um post de reabertura, mas com mil pedidos de desculpas, esse post teve uma homenageada em especial. Apenas uma.

E é dessa forma que me despeço por hoje, prometendo sem dedos cruzados que dessa vez farei o máximo possível para não deixar isso aqui jogado às traças. Em breve postarei um novo projeto e tentarei dar continuidade ao antigo.

Um grande abraço a todos

e

Um grande beijo para uma grande amiga

Published in: on fevereiro 4, 2010 at 2:38 am  Comments (1)  

Capítulo 1.4: 6 vidas por 1 instante.

Finalmente o último post do primeiro capítulo, após um longo tempo. Espero que gostem.

Bem acomodada, no outro lado de Nova York, as 6:45 da manhã, a prestigiada repórter do canal cinco, desperta com o quase ensurdecedor apito do despertador que sempre a faz surrá-lo como se fosse uma criança desobediente. Trinta e dois anos, reconhecida pelo mundo televisivo, na media do possível e dentro dos padrões de uma repórter, mas bem sucedida. Cabelos castanhos quase avermelhados e repicados um pouco além da altura dos ombros, olhos azuis e uma pele um pouco clara de mais para alguém que vive em Nova York e tem seções de bronzeamento disponíveis a qualquer hora que quiser. Mas talvez fossem esses pequenos detalhes que diferenciassem Susane McGarden das outras mulheres de seu nível. Enquanto outras repórteres se enlouqueciam atrás de uma mísera notícia que daria audiência, ali estava ela tomando seu suco de pêssego de forma moderada conforme dizia a dieta que estava sendo obrigada a seguir, graças a sua nutricionista psicótica, pelo menos era assim que Susane a julgava quando a mesma era impedida de desfrutar de seu delicioso bacon matinal que a fazia mais feliz do que qualquer outro presente. Por sinal era um dos poucos hábitos que ela nunca deixara nos últimos 10 anos que se passaram. Era bom ver toda aquela gordura concentrada naquele pequenino e por que não dizer, miserável pedaço de bacon repousando sobre o prato. Ou quem sabe fosse mais do que a gordura que transbordava ao mastigá-lo, quem sabe fosse uma distante e deliciosa risada que ela podia escutar por apenas dois segundos quando ela fechava os olhos e o engolia, uma risada jovem e cômica de alguém que a fazia rir por horas por causa de um simples filete de carne extraída de um suíno. A risada máscula e engraçada passava por horas em seus sonhos e em seus piores pesadelos, era como se fosse um flashback viciante e contínuo que a perseguia, que sumia por dias, às vezes por meses, mas no final sempre aparecia como se fosse um cartão de visitas, só restava saber de quem.

– Não, Jéssica! Não posso simplesmente aparecer aí em apenas meia hora, existe uma coisa chamada trânsito que você inclusive não precisa encarar por morar duas quadras antes da maldita central! – esbravejava Susane enquanto espremia o telefone entre a orelha e o ombro, tentando pegar as coisas dentro da bolsa. Batons, um pequeno estojo de maquiagem, preservativos, carteira, documentos, carteira de motorista vencida, celular e algumas jóias deslizando sobre uma foto já cheirando a mofo, dobrada no fundo da bolsa.

– Mas o que… – começava a perguntar a si mesma, pegando a foto e a desdobrando, reparando melhor nas pessoas que a compunha, um grupo de jovens borrados pelas manchas que o tempo havia deixado na foto.Alguns sorrindo, outros levantando taças, um casal abraçado, outro de mãos dadas.

– Susy? – Indagava a mulher do outro lado da linha, absorta pela falta de atenção da amiga. – Oi! Ok, ok! Estarei aí daqui a pouco, bye. – Diz Susane jogando o celular dentro da bolsa, ainda com a mente vagando pela foto que acabara de desenterrar daquele cemitério de coisas que toda mulher carrega na bolsa. Passara de leve os dedos sobre alguns rostos na esperança de deixar mais visível e identificável as pessoas do retrato. Algumas palavras ecoavam por sua cabeça tomando formas diferentes, expressões diferentes, um ar mais pesado. “É aqui que isso termina…” – Como se um puxão no estômago a trouxesse de volta a realidade, Susane fecha os olhos numa tentativa de apagar a lembrança, mas logo é tomada por um novo desespero ao olhar sua agenda que indicava os dois próximos dias como aqueles que precederiam um reencontro esperado e temido.

Em contra partida, o desespero deixa o cenário de nossa história conforme o tempo se passa, dando espaço ao sorriso meigo e contagiante do médico de 35 anos, Robert Collins, que contracena neste momento com o ar requintado e calmo de Julie Allen, sua companheira inseparável das mais diversas conversas já há uma década. Era impressionante a conexão que os dois tinham entrem si, conversavam, se admiravam, elogiavam um ao outro a ponto de despertar curiosidade de muitas das pessoas que os cercavam no dia-dia, por achar que eles tinham um caso ou coisa parecida. O término da faculdade não fora o suficiente para apagar aquela amizade que existia desde o fim do colegial ou os segredos guardados. Ele, um médico se aproximando da faixa dos quarenta, não em plena e completa forma física, mas seu ar considerado quase angelical, o fazia uma pessoa diferente de todas as outras. Nunca se casou, não tinha filhos, na verdade era raro as pessoas terem conhecimento de qualquer relacionamento que havia tido durante toda sua juventude, o que também despertava a curiosidade e a ironia de muitos. Dava conselho nas horas que mais precisavam, sempre disposto a ajudar, embora nunca tenha tido alguém que o ajudasse quando realmente precisou, a não ser, Julie. Essa, uma psicóloga com um gosto sofisticado e até mesmo o simples andar de uma musa, porém, sempre humilde. Vinda de uma família de classe alta de Ohio, nunca exibiu seu dinheiro nem suas condições sociais, seu jeito simples era quase marcante. Duas pessoas dinstintas, quase cúmplices de um crime que poucos cometem, o afeto. Enquanto Robert passava mais tempo metido em associações beneficentes, Julie se preocupava em tocar os negócios da família, que na maioria das vezes eram deixados nas mãos dos advogados. Ele, um homem já com idade e maturidade para ter uma família, apaixonado pela natureza, e vencedor de muitos preconceitos. Ela, o status social perfeito, que cobria o que havia ainda de melhor por trás do jeito refinado. Talvez se tudo não tivesse tomado outro rumo, poderiam ter acabado juntos. Talvez se Robert não tivesse tido uma época tão conturbada em que mais precisou de uma amiga para apoiá-lo do que uma mulher entre seus lençois. Ou quem sabe se Julie tivesse dito naquela virada de ano o que realmente pensava e o repudiado por não ser como as outras pessoas…

– Mas e se tivesse sido diferente? – dizia Robert tomando mais um copo de vinho, no restaurante onde os dois almoçavam com freqüência.

– Diferente como? Se for mais uma de suas charadas ou perguntas sensitivas, pode me poupar dessa vez, sou psicóloga, não sou médium. – retrucava Julie sorrindo, ainda sem olhar para Robert que brincava com o macarrão enquanto a mulher visava seu próprio reflexo na taça.

– Não seja tão rude, apenas imagine, como seria se todos tivessem seguido suas vidas aqui, como nós, se não tivessem se separado e nunca mais dado notícias.

– Prefiro não imaginar, isso vai além do meu limite psicológico, por vezes dado como duvidoso nos testes vocacionais. – ironizava a si mesmo a mulher, tomando mais um gole na taça. – Mas por insistência minha, aprovados.

– Abandone sua carapaça profissional por um instante, e analise bem as possibilidades. Pense bem, Richard, lembra dele? Depois que falei com ele na ultima vez por telefone, descobri que vive em Los Angeles, casou-se com aquela garota filha daquele homem que vendia equipamentos de pesca, os dois tem uma vida agradável, porém, não muito confortável, não tem filhos e…

– Ok, onde pretende chegar com isso tudo? Dizer que foi sua culpa, ou nossa culpa ter deixado que cada um deles seguisse seu próprio rumo?

– Não, apenas pensando diferente. Lembra de Caterine? Que casou com um famoso jogador, como era mesmo o nome dele?

– Jimmy Carter. – completava Julie não mostrando muito interesse na conversa embora ainda considerasse cada coisa dita pelo amigo.

– Exatamente. Pelo que fiquei sabendo ela não tem lá uma vida conjugal muito amável, ele é violento. Os vizinhos reclamam constantemente de brigas.

– Como ficou sabendo de tudo isso assim, tão de repente? – perguntava começando a se interessar aos poucos.

– Fiz ligações, pesquisei, procurei saber como estão levando a vida, até falei com os dois primeiros que eu mencionei há alguns meses. Afinal depois de dez anos sem contato, é preciso estar por dentro, descobrir o do que ficamos de fora todo esse tempo.

– E o que mais descobriu?

– Lembra do Look? Formou-se, escreveu alguns livros, vive aqui! Aqui em Nova York! Anos e anos morando na mesma cidade que a gente… – dizia Robert se empolgando com as próprias palavras enquanto gesticulava com as mãos ainda segurando a taça, que volta e meia derramava um pouco da bebida sobre a mesa, instigando uma risada controlada de Julie. – Creio que nem preciso mencionar que costumamos ver Susane McGarden todos os dias.

– Mas não falou com ela, senhor oráculo? – debocha Julie enquanto levanta o braço pedindo a conta para o garçom.

– Não, mas recebi um e-mail, ta certo que foi um depois de vários que eu mandei, mas ao menos disse que iria vim pra virada de ano.

– E Look?

– Também virá, depois de tanto custo me respondeu o fax, nos resta agora esperar.

– Robert, será que vale mesmo a pena reunir essa gente toda, ainda mais sabendo que alguns deles não tem mais uma relação tão íntima?

– É como você mesmo disse, isso não é minha culpa.

– Mas pode não ser muito agradável para alguns deles.

– Quem dirá se valerá à pena serão eles, não nós. – encerra Robert enquanto pagava a conta e se retirava do restaurante com Julie do seu lado. Uma cena realmente cômica a julgar pelo relacionamento que tinham.

Realidade. A palavra que assusta aos menos corajosos, ou porquê não dizer, menos insanos? Quando antecede os momentos em que mais tememos, aguardamos, ou ouvimos falar com freqüência, mas até poucos segundos antes do acontecido, não nos ligávamos. Ou quando simplesmente nos damos conta de que o mundo não é um lugar muito seguro. A realidade que às vezes nos assusta de forma desesperadora e excitante. A mesma realidade que fez essas pessoas se separarem em uma noite, deixando rastros marcantes, decepções, dentre outras coisas das quais eles jamais imaginariam que iriam encarar novamente após 10 anos. A mesma realidade que unirá essas pessoas novamente, poderá causar conseqüências irremediáveis. Pois é a mesma realidade que eles tentaram mudar, até então…

– Tem certeza de que não quer ir comigo? Será divertido. – dizia Richard enquanto se despedia de sua mulher, beijando-a na testa como sempre fizera num sinal de carinho.

– Espero realmente que valha a pena. – suspira pra si mesmo, Caterine, aguardando o ônibus rumo a Nova York, sem olhar pra trás, onde estava sua casa.

– E mais uma idiotice pra coleção, Sr. Skipper. – confessava Look aos risos, meio desnorteado, para o retrovisor do carro enquanto passava por uma das avenidas engarrafadas da cidade.

– Apenas finja que não é real, apenas finja que não foi real… – Exclamava de olhos fechados, a repórter Susane, ultima integrante de um grupo no mínimo curioso, apertando as mãos contra o volante e fechando os olhos.

Os mesmos olhos que mais tarde presenciariam o que todos aguardavam, mas certamente não acreditariam…

Não até presenciarem.

“Pregar a verdade como forma de propor alguma coisa útil à humanidade é a receita certa para ser perseguido.” (Voltaire).

Tenham um bom fim de semana.

Diego Dias

Published in: on março 14, 2009 at 3:32 pm  Deixe um comentário  

Capítulo 1.3: 4 dias, poucas pílulas e 1 destino pré-definido…

Califórnia, ano 2009, dia 28 de Dezembro, 01:00 da manhã…


Mais um dia havia chegado ao fim na famosa cidade de Los Angeles, onde aproximadamente mais de três milhões de pessoas descansam a cabeça neste momento em seus travesseiros, sonhando com o dia que tiveram ou com aquele que almejam. Uma cidade industrializada, merecedora de todos os adjetivos que a mídia lhe impões nos últimos anos e sem dúvida nenhuma, uma das mais impressionantes metrópoles do EUA no que se refere a oportunidades de empregos. Tantas qualidades a serem ressaltadas, tantos astros e estrelas a serem fotografados e perseguidos, no entanto a única coisa que interessa para Richard O’Reily nesse instante em que só se escuta os roncos sufocantes ou as camas chacoalhando para os mais inquietos, é achar suas pílulas que na certa estariam perdidas no quarto pelo qual ele perambula com todo o cuidado para não acordar a esposa que dorme tão tranqüilamente. Era tão bom vê-la dormir, com o passar dos anos ele havia percebido que não precisava ser um desses ninfomaníacos obcecados pela idéia de ter uma mulher ao lado somente para satisfazê-lo, percebera com o tempo que passaram juntos que ela era mais do que ele esperava quando a pediu em casamento na saída da universidade alguns anos atrás. A voz que ele escutava todas as manhãs acordando-o cedinho e que ao contrário de qualquer outra pessoa não o deixava irritado por estar sendo despertado, era dela. O aroma de flores de diversas cores que às vezes ficavam pela sala, pela cozinha e por quase todos os cômodos da casa, vinham de quando ela carregava vários cestos repletos de orquídeas, levando-as para o orquidário improvisado que Richard fizera especialmente para ela se distrair. Dez anos haviam passado rápido para o homem quase calvo de rosto e corpulência arredondada. As pílulas agora encontradas por ele em cima do armarinho do banheiro pareciam gritar para ele que os dez anos que se passaram foram sem dúvida nenhuma os melhores de sua vida, que ele não deveria se arrepender nem sequer por um instante de tudo que fez até aquele momento, que jamais deveria olhar para trás e deixar uma lágrima escorrer por qualquer coisa que deixara de fazer ao longo desse tempo. Ele tinha o que todo homem deseja e poucos conseguem, tinha o amor de uma mulher com a qual ele se apaixonava cada vez mais a cada dia que passava, com a qual ele se preocupava, se dedicava e se doava de corpo e alma para sua felicidade. Sua vida profissional não era das melhores, tinha conseguido comprar um apartamento um pouco apertado no centro da cidade três anos após o casamento, se mudara de lá quatro anos depois que fora promovido a editor de um pequeno jornal inaugurado poucos anos atrás, de pequenina repercussão, mas sem dúvida nenhuma uma alta bonificação. Infelizmente não havia durado muito seu reinado, após alguns meses foi demitido por não concordar com algumas regras de edição impostas pelos superiores que não pestanejaram em fazê-lo sair de lá com uma mão na frente e outra acenando para pedir um táxi. Mas não custou a arranjar outro emprego em uma revista de baixo nível se comparada ao jornal, porém, precisava do dinheiro e não seria idiota a ponto de negligenciar outra oportunidade de emprego. Agradável não seria a palavra certa para descrever seu novo ambiente de trabalho, rentável talvez, de certa forma era suficiente para economizar durante mais alguns anos e vender o apartamento sufocante mudando-se para uma área menos popularizada da cidade e mais saudável longe de nuvens negras de fumaças ou pessoas gritando embaixo de seu prédio, querendo saber quem gostaria de comprar salgadinhos. Estava longe de ser uma casa luxuosa, longe também de ser aquilo que dissera uma vez no colegial, que gostaria de alcançar quando terminasse a faculdade. Mas seria a maior mentira do mundo afirmar pra si próprio que não estava feliz com tudo aquilo, que não se enchia de orgulho ao lembrar do “Sim” escutado por ele no altar, ou que não suspirava de tranqüilidade ao ver sua esposa chegando bem do serviço na HCLA.

As pílulas desciam pela garganta junto com a água morna enquanto ele respirava aliviado por tê-las achado, sem elas realmente ele não se sentiria tão bem quanto naquele momento. Elas o acalmavam, o deixavam refletir melhor sobre as escolhas que ainda teria que fazer, embora ainda preocupasse o fato de que elas estavam se esgotando, mas isso pouco importava agora que faltavam apenas poucos dias para rever todo um passado e sorrir novamente ao lado daqueles que pôde dizer um dia que amava como irmãos. Já eram quase duas horas da manhã quando ele se deitou e olhou no rádio-relógio que marcava dia 8. Poucos dias, muitos sorrisos, algumas preocupações… Entre tantas coisas que estavam por vir e tudo que havia passado, só havia uma coisa que gostaria de fazer agora… Dormir.


Nota:  HCLA = House of Charities of Los angeles  ou Casa de caridade de Los angeles… como preferirem.

Abraços!

Diego Dias

Published in: on janeiro 24, 2009 at 10:10 pm  Comments (1)  

Capítulo 1.2: 5 dias, 1 aniversário, nenhum presente…

Continuando o primeiro capítulo, mais um personagem para conhecerem aos poucos…

Abraços!

Diego Dias

Uma madrugada como qualquer outra é vivida em Nova York, no edifício Adam Sullivan, próximo ao Central Park, no 14º andar, mais precisamente no apartamento nº 1020, onde o rapaz de pele clara e cabelos pretos contrastantes, repousando sobre uma confortável cama tenta assimilar seu passado e digerir os problemas diários enquanto encara o teto com os olhos vidrados na textura que mandara fazer a pouco tempo em seu quarto. Ela o incomodava um pouco, era azul de mais para o tom suave feito neve que regia as paredes do quarto, e não o agradava tanto como pensava que o agradaria dois dias atrás quando mandou que ela fosse feita, mas o que seria isso diante de um apartamento sofisticado como o de Look Skipper? 31 anos, formado em direito em Nova York, requisitado até por altos profissionais do ramo e um exímio escritor. Um carro moderno na garagem, um apartamento refinado em um dos bairros de classe média-alta de Nova York e uma vida profissional decolando cada vez mais parecia não ser suficiente para ele, como alguns costumam dizer,  sempre arranjamos defeitos, ainda que não exista nenhum. A janela estava aberta, por ela entrava uma suave brisa de início de inverno que arrepiava até o último cabelo da nuca daqueles dois deitados sobre a cama, nus por debaixo dos lençóis. A grande diferença era que ele permanecia acordado contemplando o teto do quarto com as mãos atrás da cabeça, enquanto a mulher de corpo esbelto e pele suave dormia feito um anjo, seu rosto exibia uma quase pureza se não fosse pelas marcas nos pescoço e pelo sorriso sacana que permanecia em seus lábios mesmo após ter caído no sono. Provavelmente seria mais uma noite como todas as outras que se passaram até ali repetitivamente nos últimos 10 anos. Mas ela era tão perfeita, como podia não se interessar por ela? Como podia não sentir nada que não fosse luxúria diante daquelas curvas tão atraentes ou daquele sorriso maldoso e um olhar que implorava por calor humano? Simplesmente não podia. Fora assim durante todos esses anos, várias mulheres, carros, livros sendo publicados, pessoas dizendo que ele sabia aproveitar a vida como ninguém, pessoas lhe bajulando, pessoas lhe pedindo dinheiro emprestado, pessoas o invejando pela vida que ele levava. Sua vida era repleta de pessoas, repleta de coisas com as quais costumamos sonhar no dia-dia, e, no entanto seu maior sonho ainda era um fantasma morto há 10 anos, um fantasma que viveu até o dia 31 de dezembro de 2000, que ainda o atormentava nas noites em que dormia sozinho ou nas noites em que acordava suado com alguma mulher ao lado, consolando-o como uma criança perdida. Se ele fechasse os olhos por um instante apenas, poderia escutar claramente o barulho das taças de champagne se chocando leve e propositalmente naquele último dia em que estiveram juntos. Várias pessoas jurando sobre um mesmo piso, sob um mesmo céu; que se veriam novamente em no máximo uma década. “Besteira, na certa metade deles já devem estar mortos… Mas onde diabos eu deixei a garrafa de Vodka?!” – Pensava Look enquanto revirava o pequeno bar integrado a parede da sala de visitas. Volta e meia olhava no relógio preso ao pulso esquerdo que fora uma das poucas partes que ainda estavam cobertas em seu corpo após ter se levantado da cama. A sensação de estar ficando mais velho era estranha, mas mais estranha ainda era a sensação de estar fazendo aniversário e não ter ninguém pra gritar em seus ouvidos. Ser elogiado por revistas masculinas, procurado por pessoas mais velhas que diziam a ele que haviam lido um de seus livros, ou ser atacado por mulheres da alta sociedade era realmente muito bom, mas será que não devia ter algo mais? Ao menos essa era a pergunta que se passava por sua cabeça enquanto tomava aquele copo de vodka e analisava a foto sobre uma mesa de centro. Uma foto tirada 10 anos atrás onde um rapaz magro, de cabelos curtos e pretos, de olhar expressivo e sorriso bobo se divertindo com os amigos ao lado de uma garota que aparentemente não se importava muito se agradaria ou não jogando champagne em sua camisa social. Outro gole do 6º copo de vodka é o suficiente para deixar o porta-retratos virado pra baixo e caminhar de volta para a cama onde esteve há poucos minutos e onde se esquentava com o corpo daquela bela mulher que conhecera poucas horas atrás. Definitivamente, era a vida perfeita, pelo menos deveria ser…

Published in: on janeiro 22, 2009 at 11:36 pm  Comments (5)  

Capítulo 1.1: 10 anos, 6 almas, poucos dias…

Como prometido, começarei postando de uma vez (sim, culpa da ansiedade) a primeira parte do primeiro capítulo deste pequeno ‘book’.  Alguns irão estranhar a falta de um título principal, mas isso realmente prefiro decidir com o tempo. Espero que gostem dessa primeira parte que irá mostrar um pouco de cada personagem                                               Diego Dias

Não tinha uma noção clara até aquele momento do que estava acontecendo, só sabia que não era a hora certa para dizer ao marido que o traíra na noite passada, não agora enquanto Jimmy era carregado numa maca em direção à mesa de operações. O corte havia sido profundo, não precisava ser um cirurgião de primeira pra saber que obviamente aquela perna que um dia pertencera ao maior marcador da liga nacional de futebol americano teria que ser amputada as pressas para quem sabe evitar uma agravação ainda maior. Durante 10 anos Caterine Aguilar ocultou de Jimmy Carter a infelicidade que sentia por não ter conseguido seguir com sua carreira de atriz. Ela era bela, formosa, seios fartos e quadril largo. Seus cabelos quase dourados meio que escorriam pelas costas até a altura da cintura, talvez por isso tenha sido chamada de sereia de Dakota (onde nasceu) pela conceituada revista “Woman” em uma das vezes em que a fotografaram com Jimmy em um restaurante do bairro. O perfeito objeto sexual que qualquer homem desejaria em 10 anos não passou de uma fracassada professora de artes, normalmente enquanto assistia seu marido pela ESPN imaginava como teria sido a vida das outras pessoas que tiveram com ela naquela última noite de 2000 enquanto levantavam taças de champagne e prometiam se unir depois de uma década, para contar seus fracassos, suas vitórias, seus objetivos alcançados e tudo mais que um grupo como eles tinha direito. Mas por que diabos ela tinha que pensar nisso agora? Agora que seu marido estava preste a perder uma perna e encerrar a carreira com apenas 34 anos de idade. Era até irônico o fato de que agora quem trocaria de lugar com ela ou ao menos se juntaria à vida de fracassado seria ele. Sim, irônico, mas de maneira nenhuma engraçado, não podia ser engraçado, afinal ele estava gemendo de dor naquela maca a caminho de uma sala de operações, ela não tinha o direito de achar isso engraçado, seria pecado? Ela preferia achar que era apenas estresse, claro, nenhuma mulher conseguiria ficar calma naquela situação, mas e se não fosse? E se fosse realmente a hora de contar a ele que na noite passada ela havia ido pra cama com o irmão de Jimmy que era o oposto do marido grosseiro que ela havia arranjado após deixar a faculdade 10 anos atrás? E se fosse a hora de dizer a ele que os 10 anos que se passaram foram os piores de sua vida, que eles não deveriam sequer ter se conhecido por intermédio de seu irmão, que eles não combinavam em nada, que não tinham nada em comum, que de maneira alguma foram feitos um pro outro, que ela odiava aquela enorme soberba que ele possuía e aquele cheiro de perfume barato que ele exalava, que ela odiava ter que sustentar a imagem de uma esposa perfeita para os jornalistas por causa de um homem que mal a notara como mulher nos últimos 3 anos de casamento, que ela odiava a forma com que ele a tratava perto dos amigos ou o modo como se referia a ela quando estavam em algum jantar em família, que ela havia se casado por necessidade e não por vontade, por não suportar a idéia de prolongar financeiramente dizendo, a miserável vida que havia tido até a faculdade? Contaria que o sexo dos dois era tão desanimado quanto ter que assistir seus jogos aos domingos? Que as vezes em que ele virava pro lado para dormir ela o imaginava queimando em uma fogueira e pedindo misericórdia ou que as vezes em que ele chegou tarde em casa com marcas de batom na gola da camisa esportiva e arranhões no pescoço ela se controlara ao maximo para não esfaqueá-lo durante o sono, contaria que o sentimento que havia sobrado entre os dois era apenas medo, medo por apanhar quando ele bebia ou ter que aturar seus gritos que acordavam todos do prédio no requintado bairro em Jacksonville? Não, ela não contaria, não agora…

– Srª. Carter? – Repetia pela terceira vez já impaciente o enfermeiro auxiliar do centro médico enquanto esperava Caterine reagir ou ao menos piscar os olhos. Estava totalmente absorta em pensamentos. – Senhorita Carter?!

– Sim? Ah, perdão. – dizia ela enquanto pegava a prancheta com formulários de protocolo a serem preenchidos. Nem a maldita burocracia de hospitais que a deixava louca conseguia fazer deixá-la de pensar em tudo que estava ocorrendo. “Deus, dez anos, como eu pude agüentar toda essa merda?”.– Pensava a professora de artes enquanto assinava o nome em uma das linhas ao lado do nome Jimmy Troyan Carter. Se isso fosse um filme certamente enquanto seus dedos faziam a caneta dançar pelas linhas dos documentos o enfermeiro perceberia o hematoma na mão direita de Caterine e daria uma de herói aconselhando-a, consolando-a e acabando com o vilão da história, embora esse já estava praticamente acabado sem uma das pernas. Caterine sentia algo queimando dentro do peito, observava com uma atenção quase espantada o calendário posto próximo ao saguão de entrada.

– Hoje é dia 26, certo? – Pergunta com os olhos lacrimejando pelos pensamentos anteriores, mas com a mente voltada agora inteiramente para o calendário, desbotado e pendurado na parede.

– Sim. – Responde o enfermeiro recolhendo os papéis já assinados e levando-os até o balcão. – Faltam só 6 dias para o novo ano, graças a Deus esse ano passou mais rápido do que eu esperava, tomara que o próximo seja assim. – retruca o rapaz desanimado. – Deve ta sendo difícil isso tudo acontecendo um dia só depois do natal.

– É… – Suspira Caterine olhando mais uma vez o calendário enquanto fecha os olhos e imagina os próximos 6 dias que antecederiam um esperado, porém, inexplicável encontro.

Published in: on janeiro 21, 2009 at 10:20 pm  Comments (2)  

Retornando…

Bom, a princípio não tenho tantas coisas a dizer e ao mesmo tempo várias. Talvez por ser meu primeiro post após ter reaberto o blog e voltado às origens. Talvez seja pelo fato de que desacostumei a expor minhas opiniões e trabalhos para todos, ou se não, por simples empolgação. Meu nome é Diego Dias, tenho 17 anos, moro em uma cidadezinha praiana do ES, não sei meu tipo sanguíneo, não lembro sequer meu número de telefone sem ter que olhar na agenda do aparelho. Tenho um grande sonho de quem sabe um dia me tornar um escritor, geralmente é nessas horas que aparece alguém pra perguntar se pretendo ser sustentado a vida toda por meu pai, ou se eu não deveria por os pés no chão. Bom, infelizmente (para essas pessoas) só tenho a dizer que meus pés sempre se mantiveram no chão, mas minha mente, essa sim vaga por todos os lugares que for possível estar, ela é onipresente, ela é desafiadora, ela é meu refúgio…

Mas é claro, não tenho só essa meta na minha vida, pretendo cursar direito quando sair do colegial, embora eu saiba melhor que ninguém que até o final do ano minhas preferências relacionadas à faculdade podem mudar, tenho planos para o futuro, me vejo às vezes engravatado e com o cabelo penteadinho, me vejo às vezes com um jaleco branco olhando para uma mesa de cirurgias, confesso que já me surpreendi imaginando como eu ficaria até mesmo como ator, cantor, e diversas coisas das quais eu nem tenho talento. Outras vezes ainda me vejo com o velho cordãozinho de madeira sentado la no final da praia onde costumo ir pra raciocinar um pouco, quando isso se torna impossível dentro de casa. Isso realmente me assusta um pouco. É mal do ser humano, planejar, arquitetar idéias sem ao menos saber se vai poder concretizá-las. Mas acho realmente que a graça de toda a situação é essa, imagine como seria opaco nosso ambiente se não almejássemos nada? Se ficássemos o tempo todo à espera de algo que a vida tenha pra nos dar, não se pode aguardar as oportunidades caírem do céu, até porque algumas só batem uma vez na nossa porta, aprendi isso recentemente, e por acreditar, crer e de certa forma ir a luta, pude constatar o quão grandiosa ela é…

O tempo é curto para dizermos a elas se podem entrar ou que voltem mais tarde. Tenho planos para mim, para outra pessoa também… Como diria alguém que não me recordo o nome, “vamos deixar que as coisas aconteçam, uma de cada vez, passo após passo, não deixando nunca de pensar no futuro, mas sem roubá-lo antes da hora…”, caso não apareça ninguém para dizer quem foi o autor da frase, juro que vou acabar patenteando-a.

Bom, nesse blog assim como no meu antigo, postarei alguns textos de minha autoria entre outras coisas, mas, principalmente uma nova historia que tenho construído aos poucos, nada de grandioso, mas significante pra mim, e espero que futuramente seja agradável para todos que puderem lê-la aqui.

Um grande abraço a todos!

Diego Dias

”Sou um crente, pois creio firmemente na descrença. …Creio que a terra é chata. Procuro não sê-lo. …Tudo o que não sei sempre ignorei sozinho. Nunca ninguém me ensinou a pensar, a escrever ou a desenhar, coisa que se percebe facilmente, examinando qualquer dos meus trabalhos.” – (Millôr Fernandes)

Published in: on janeiro 20, 2009 at 9:25 pm  Comments (1)